Marcia Auriani

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Quer entender as redes sociais? Tire o snorkell e coloque o tubo de oxigênio!

Por Marcos Hiller – Artigo 10 – 05/01/2013

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“Eu sei que deveria, mas isso não vai acontecer. Se eu receber uma mensagem no Facebook ou algo postado no meu mural, eu tenho que ver isso. Tenho que ver…” (depoimento de Roman, um jovem de 18 anos, extraído do livro  “Alone Together” de Sherry Turkle,  ao admitir que envia  mensagens de  texto enquanto dirige seu carro, e diz que não vai parar)

Esse texto que você está lendo surgiu de uma inquietação que eu tenho no sentido de entender de forma mais contundente esse fenômeno, que tanto se fala mas pouco se aprofunda, dos chamados sites de redes sociais. Evidencia-se que temos hoje mais formas de comunicação do que em qualquer outro momento da história. No entanto, muito mais do que simplesmente entender cada um de novos ambientes de produção midiática, devemos refletir como esses fenômenos impactam a sociedade contemporânea. Os chamados gadgets como iPhone, iPad e iPod, iMac, GPS, BlackBerry são muito mais que do que meros aparatos tecnológicos, eles adquirem uma carga simbólica e fazem parte da vida dos consumidores contemporâneos, sobretudo os jovens, contribuindo para a formação de uma identidade social. Quando as pessoas compram um iPhone, por exemplo, “estão não apenas adquirindo um aparato tecnológico, como também vivenciando certo estilo de vida (digital) e se inscrevendo num imaginário tecnológico que enfatiza as ideias de inovação, elegância e distinção econômica” (FELINTO, 2010).

A proliferação dos chamados sites de rede social são um fenômeno informacional da segunda metade dos anos 2000 e se tornaram importantes objetos de pesquisa no campo da comunicação, cibercultura e diversas outras áreas do conhecimento. É de fundamental importância aqui trazermos também uma visão transdisciplinar de como prestigiados pensadores contemporâneos do campo da comunicação, cultura e consumo enxergam e definem esses novos e magnéticos ambientes comunicacionais. Para Erick Felinto (2010), “o advento das chamadas redes sociais, forjadas deste século na e pela apropriação social sinérgica de plataformas virtuais e dispositivos interativos (especialmente móveis) de compartilhamento de arquivos e informações é um exemplo indubitável e abastado dessa condição social-histórica imprecisa, hesitante e incompleta”. Nota-se aqui que Felinto, de forma enfática porém contundente, relaciona o surgimento desses websites de massa como um fenômeno que carrega um viés social importante. Já o antropólogo Nestór Garcia-Canclini (2007) argumenta que “no limite, chega-se a fenômenos de autismo e desconexão social, devido às pessoas preferirem antes ficar na frente da tela do que relacionar-se com interlocutores em lugares fisicamente localizados. Conectividade não é sinônimo de interatividade”. Aqui nota-se que o pesquisador, que vive hoje no México, entende que o efeito dessa disseminação de novos ambientes virtuais podem ser nocivos ao processo de ensino-aprendizagem de jovens, pois “cada vez se lê menos livros e mais xerox de capítulos isolados, textos curtos obtidos na internet, que comprimem a informação. Diminuem os “leitores fortes” (extensivos ou intensivos), enquanto aumentam os “leitores fracos” ou “precários” (CANCLINI, 2007). É em virtude disso que evidencia-se fechamento de livrarias pois os jovens estão lendo menos e com novos parâmetros de comportamento. No ano de 2010, por exemplo, a Borders (até então, a segunda maior livraria dos Estados Unidos) entrou em falência. O ato de ler perde valor em uma vida rodeada por telas e aqui nota-se o magnetismo dos míseros cento e quarenta caracteres que norteias as conversas e interações no microblog Twitter.

Por meio do breve manancial teórico aqui apresentado, o que nos fica evidente é que cada rede social apresenta potenciais que lhe são próprios, por exemplo as especificidades do Orkut em relação ao Facebook, e este em relação ao Twitter, embora todas as redes sociais tenham um fio condutor marcado pela intersubjetividade. E quando imprimimos nosso olhar esses novos ambientes discursivos e informacionais, pode-se observar inúmeras facetas como, entre elas, as múltiplas identidades que se pode adotar nesses espaços plurais e possibilidade do anonimato. Sherry Turkle (2010) nos trouxe um nítida reflexão ao dizer que o mundo online provoca atração dos usuários, pois não carrega as exigências do relacionamento pessoal. Ao evidenciarmos o comportamento de cibernautas em usos cotidianos dessas plataformas, vemos que boa parcela de pessoas preferem desejar a um outro usuário palavras de feliz aniversario com mais frequência pela rede social do que por meio de contato telefônico ou pessoal.

Finalizado esta argumentação, importante concentrar nossa atenção para a necessidade de trazer para o debate a diversidade de estratégias no contexto das redes digitais de comunicação e implicam na formação de subjetividades. A intenção aqui não se limitou somente mostrar a relevância dos estudos da comunicação para a compreensão das dinâmicas socioculturais pós-modernas, mas também contribuir para o debate sobre consumo midiático na contemporaneidade.

Referências Bibliográficas:

FELINTO, Erick. “Think different: estilos de vida digitais e a cibercultura como expressão cultural”. In:

TRIVINHO, Eugênio e REIS, Ângela P. (Orgs.). A cibercultura em transformação: poder, liberdade e sociabilidade em tempos de compartilhamento, nomadismo e mutação direitos. São Paulo: ABCiber; Itaú Cultural, 2010, p. 39 a 47.

GARCIA CANCLINI, Néstor. Leitores, espectadores e internautas. São Paulo: Iluminuras, 2008.

TURKLE, S. Alone together: why we expected more from technology and less from each other. New York: Basic Books, 2011.

Marcos Hiller Prof. Marcos Hiller: Autor do livro BRANDING: A ARTE DE CONSTRUIR MARCAS. É coordenador do Novo MBA em Marketing, Consumo e Mídia Online da Trevisan Escola de Negócios, e do curso de Mídias Digitais da Escola São Paulo. Palestrante internacional nas áreas de Redes Sociais, Branding, Cibercultura e demais temas inquietantes desse novo ecossistema digital que habitamos. É mestrando em Comunicação e Práticas do Consumo pela ESPM, onde coordena todo o processo de comunicação digital do programa, e tem publicado diversos artigos em congressos nacionais e internacionais. Atua hoje como consultor na área de marcas e também como professor de diversos cursos de MBA e Pós-graduação pelo Brasil. Formado em Marketing pela ESPM, tem especialização em Marketing de Serviços e um MBA em Gestão de Marcas, além de diversos cursos no Brasil e no exterior. É colunista do Olhar Digital, do site ADMINISTRADORES (o maior portal de administração e negócios do Brasil) e colabora com entrevistas e textos para veículos como Folha de S.Paulo, O Globo, Istoé Dinheiro e Record News.

Contato:  Hiller78@yahoo.com.br

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